'30×30': a corrida global para salvar a biodiversidade pode mudar a vida de bilhões de pessoas
Estudo publicado na revista Nature Communications mostra que a meta internacional de proteger 30% do planeta até 2030 terá impactos sociais profundos, especialmente sobre populações indígenas, agricultores familiares e comunidades pobres

Imagem: Reprodução
A maior iniciativa global de conservação ambiental desde a criação dos parques nacionais no século XIX poderá redefinir não apenas o destino da biodiversidade do planeta, mas também a vida cotidiana de bilhões de pessoas. É o que conclui um amplo estudo internacional publicado nesta terça-feira (12), na revista científica Nature Communications, que analisou os efeitos sociais da chamada meta “30×30”, aprovada em 2022 durante a Convenção da Biodiversidade da ONU.
O objetivo do acordo — oficialmente chamado de Meta 3 do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal — é ambicioso: garantir que ao menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta estejam protegidas ou conservadas até 2030. Hoje, essa cobertura chega a cerca de 17,5% das terras e águas interiores do mundo.
Mas o novo estudo alerta que ampliar áreas protegidas nessa escala significará interferir diretamente em territórios habitados, explorados economicamente ou culturalmente ocupados por populações humanas em diferentes continentes.
Coordenada pelo pesquisador Javier Fajardo, da University of Cambridge, a pesquisa reuniu especialistas de dezenas de instituições internacionais e modelou três cenários distintos de implementação da meta global.
O resultado impressiona pelos números: dependendo do modelo adotado, entre 517 milhões e 2,2 bilhões de pessoas poderão passar a viver dentro de novas áreas de conservação. Se forem consideradas também populações residentes num raio de até 10 quilômetros dessas regiões, o contingente afetado pode ultrapassar 2,7 bilhões de indivíduos.
“Nosso trabalho mostra que a Meta 3 é tão social quanto ecológica”, afirmam os autores no artigo. “Seu sucesso dependerá não apenas de mapas de biodiversidade, mas da capacidade de garantir direitos, financiamento e inclusão social.”
O estudo examinou três estratégias possíveis para atingir a meta internacional. A primeira prioriza regiões de alta biodiversidade; a segunda privilegia áreas que oferecem serviços ambientais essenciais à humanidade, como regulação climática e abastecimento hídrico; e a terceira concentra esforços em territórios indígenas e tradicionais.
Cada caminho produz impactos sociais distintos.
No cenário voltado à biodiversidade, os pesquisadores estimam que cerca de 2,2 bilhões de pessoas viveriam em áreas protegidas ou conservadas — quase 30% da população mundial. Grande parte delas estaria em regiões agrícolas ou densamente povoadas, sobretudo na Ásia.
Já o cenário baseado em territórios indígenas apresenta números menores em população total, mas concentra grupos socialmente mais vulneráveis. Segundo a pesquisa, 61% das pessoas potencialmente afetadas vivem em áreas de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), enquanto mais de 90% dependem direta ou parcialmente da coleta de recursos naturais para sobreviver.
Para os autores, isso evidencia um dilema histórico da conservação ambiental: proteger a natureza sem reproduzir injustiças sociais.
Durante décadas, muitos projetos de preservação ao redor do mundo foram associados à expulsão de populações locais, restrições de acesso à terra e criminalização de práticas tradicionais. Em vários países africanos e asiáticos, comunidades indígenas foram removidas de parques nacionais em nome da conservação.
O novo estudo cita explicitamente esse risco e alerta que a expansão acelerada de áreas protegidas pode repetir erros do passado caso governos priorizem modelos rígidos de preservação.
“A implementação da Meta 3 deve evitar formas autoritárias e excludentes de proteção ambiental”, defendem os pesquisadores.
Entre os especialistas envolvidos está Chris Sandbrook, também da University of Cambridge, que há anos estuda os conflitos sociais associados à conservação. Para ele, a preservação da biodiversidade só será sustentável se houver participação efetiva das populações locais.
O artigo destaca ainda o papel central dos povos indígenas. Embora frequentemente marginalizados em políticas ambientais, esses grupos administram ou ocupam áreas que correspondem a pelo menos 32% da superfície terrestre do planeta.
Diversos estudos recentes mostram que terras indígenas preservam biodiversidade em níveis comparáveis — e em alguns casos superiores — aos parques nacionais tradicionais.
Por isso, uma das principais conclusões da pesquisa é que a conservação do século XXI dependerá menos de modelos centralizados e mais de governança compartilhada.
“Territórios indígenas e tradicionais não devem ser vistos apenas como espaços a serem incorporados à conservação, mas como protagonistas dela”, afirmam os autores.
O trabalho também chama atenção para desigualdades globais. Regiões tropicais da África, América do Sul e Sudeste Asiático concentram simultaneamente alta biodiversidade e populações vulneráveis economicamente. Isso significa que os custos sociais da conservação tendem a recair sobre países mais pobres, enquanto os benefícios climáticos e ecológicos são compartilhados globalmente.
Nesse contexto, os pesquisadores defendem mecanismos internacionais de compensação financeira. Entre as propostas citadas estão programas de renda básica para populações que preservam ecossistemas, financiamento para iniciativas locais e fortalecimento de direitos territoriais.
A discussão ganha peso num momento em que a crise ambiental avança rapidamente. Segundo a ONU, cerca de um milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, eventos extremos associados às mudanças climáticas vêm ampliando a pressão sobre florestas, recursos hídricos e territórios tradicionais.

Historicamente, metas globais de conservação raramente foram alcançadas integralmente. As Metas de Aichi, estabelecidas para 2020, fracassaram em boa parte dos indicadores. Agora, a comunidade internacional tenta acelerar ações antes do fim da década.
Mas os autores alertam que a pressa pode ser perigosa.
“O componente espacial da meta não pode atropelar seus componentes sociais”, escrevem.
A pesquisa sugere que a corrida pelos “30%” não deve ser medida apenas em hectares preservados, mas também pela capacidade de reduzir desigualdades, proteger direitos humanos e criar modelos sustentáveis de convivência entre pessoas e natureza.
No fundo, o estudo revela que a nova fronteira da conservação ambiental deixou de ser apenas ecológica. Ela se tornou também política, econômica e social.
E talvez essa seja a maior transformação silenciosa da agenda ambiental global: salvar a biodiversidade do planeta exigirá, inevitavelmente, decidir quem poderá viver, produzir e permanecer nos territórios do futuro.
Referência
Fajardo, J., Bingham, HC, Brockington, D. et al. Implicações sociais da meta global de conservação 30×30. Nat Commun 17 , 4067 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-71860-8